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LUGAR DOS ROMANZINHOS

A nação curda

09:20 07/03/2010

Nascendo ali o Tigris e o Eufrates, as origens da Mesopotámia estão no Curdistão. No seu percurso desde a parte norte dominada pola República Turca, os rios continuam por território curdo, o Eufrates polo de Síria e o Tigris polo de Iraque, para encaminharem o espaço iraquiano, unindo-se no Shatt al-Arab, pouco antes de Basora, já perto da desembocadura no Golfo Pérsico.

Berce de civilizações, a imagem que se tem do Curdistão do norte é a deitada polo Estado turco. Mália ocupar mais de um terço do território estatal, para Ancara o Curdistão não existe, sendo ocultado como o excéntrico recanto do sudeste da Anatólia. Os curdos são chamados turcos da montanha. A sua língua milenaria é reprimida. O Estado turco nega o carácter diferenciado de um povo que supõe a terceira parte dos seus 72 milhões de habitantes. Estendendo-se também por Síria, Iraque, Irão e Arménia, vivem nessa terra desde milhares de anos antes de os turcos chegarem desde Ásia central. Sofreram o domínio e receberam a influência de povos, religiões e culturas diversas: hititas, asírios, gregos, romanos, árabes, turcos, conservando uma personalidade diferenciada. Em Turquia as suas aspirações nacionais são identificadas com o terrorismo.

Depois da caida do Império Otomano em 1918, os curdos conseguiram um Estado próprio, mas as circunstâncias da posguerra motivaram a anulação do Tratado de Sèvres, que o estabelecia, sendo o seu território desmembrado e repartido em quatro Estados alheios. Foram convertidos em estrangeiros na sua própria nação.

Abraçada polos dois rios, Diyarbakir é com 600.000 pessoas a principal cidade do Curdistão da República Turca. A muralha que rodeia a cidade velha, imponentemente fermosa, com seis quilómetros de negra pedra basáltica, a mais comprida do mundo depois da chinesa -afirmavam os amigos curdos-, foi construida há 1700 anos -no tempo da de Lugo- sobre o fundamento de outras mais antigas, a primeira delas levantada há cinco mil anos.

Nesta cidade celebrou-se os últimos dias de Fevereiro a Conferência Internacional sobre Experiências com Negociação de Resolução de Conflitos organizada polo Congresso da Sociedade Democrática daquel país. Assistiram 150 representantes de organizações políticas, académicas, sociais e culturais e de meios de comunicação curdos, e também turcos, com a presença especial de convidados da Galiza, Irlanda, Flandres, Gales, Catalunha, Euskadi, Sudáfrica, Alemanha ou Suecia, para relatarem a experiência de nações sem Estado em procura do pleno autogoverno.

Apoiada pola municipalidade de Diyarbakir a reunião contou com a assistência do presidente da Câmara, elegido numa lista curda que conseguiu 65% dos votos. Entre os representantes dos partidos da nação estava Leyla Zana, a deputada que há anos foi expulsa do Parlamento turco de Ancara e encarcerada por começar uma intervenção na sua língua. Chamado a participar através da Fundação Galiza Sempre, tive a ocasião de expor os fundamentos e a experiência, tanto histórica como presente, do movimento nacional galego frente ao propósito de estabelecer e definir ao Estado espanhol e a Espanha como nação única.

A Conferência de Diyarbakir, com intervenções de um alto nível político, constituiu uma oportunidade de debate sobre a questão curda, contrastando-a com o vivido noutras nações sem Estado, como as do Estado espanhol e a Grã-Bretanha ou com o sucedido na Sudáfrica de Nelson Mandela e com determinados Estados de Latinoamérica.

Constituindo um excepcional exercício de liberdade de expressão democrática numa Turquia na que os curdos som ainda condenados a duras penas de prisón ou inabilitación política por causa das opiniões políticas manifestadas, a Conferência teve lugar num momento crítico, quando o Governo de Ancara tomava medidas especiais contra chefes militares que, fazendo parte de um exército concebido de facto como um Estado paralelo, tratariam de impedir de novo a evolução democrática, em particular no que afectar aos direitos do povo curdo.

O respeito dos direitos nacionais e culturais curdos, junto com a subordinacão estrita dos militares ao poder civil, são as duas questões principais entre as exigidas pola União Europeia para a possível integração de Turquia. Um Estado que, confirmando o carácter laico estabelecido por Kemal Ataturk, com independência da livre expressão religiosa, teria que reconhecer o seu duplo carácter turco e curdo, enxergando uma convivência pacífica com os curdos e demais povos de Arménia, Irão, Iraque e Síria.

Invisível ao carecer de uma instituición estatal própria, com a liberdade querida a nação curda levantaria a cabeça, devolvendo-se-nos a todos a realidade de um país do que procede uma parte substancial da cultura universal.

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Camilo Nogueira

Camilo Nogueira Román naceu en Lavadores (Vigo) en 1936. Enxeñeiro industrial e economista, foi eurodeputado polo BNG entre os anos 1999 e 2004.



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