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Celso Álvarez Cáccamo

Como fumigar democraticamente

10:16 23/06/2009

Como não seguim o Circo Eleitoral Europeu, não soubem que o lidereso popular basco Carlos Iturgaiz propusera um tratamento higiénico político de provada efetividade: a fumigação, não apenas do exército da ETA, mas de todo o seu “contorno”, legal, alegal, ilegalizado ou relegalizado, incluindo o candidato de Iniciativa Internacionalista Alfonso Sastre. Aquelas (e estas) declarações de Iturgaiz são transparentes: “Iturgaiz felicita la ilegalización de Iniciativa Internacionalista porque ‘hay que fumigar a ETA’” (EFE, 18 maio), “‘hay que fumigar a ETA con la ley en la mano se llame como se llame’ y ha reclamado medidas por parte del Gobierno ‘cuando sabemos que la lista de Iniciativa Internacionalista en la lista de los criminales’” (Europa Press, 30 maio); “ ‘...actuar con la ley en la mano para fumigar todo lo que signifique terrorismo’ (...) ‘Ese terrorismo (...) intenta(n) exportar un terrorista a Europa con el nombre de la lista Iniciativa Internacionalista” (Europa Press, 1 junho); “fumigar con la Ley en la mano todo lo que signifique ETA y sus acólitos” (22 junho). Claro que talvez tudo fosse apenas feliz metáfora, caso no qual o “dolor” que Sastre agoira para Euskal Herria e España também se pode ver assim. Ui, que escorrego.

Eu sou pola proposta da fumigação preventiva. Por exemplo, se os comunistas alemães tivessem fumigado o candidato legal Adolf Hitler junto com Goebbels e Himmler antes das eleições de 1930, talvez toda a Europa se tivesse poupado milhões de mortes. Em Madrid, visto que a vingativa fumigação de Calvo Sotelo em 1936 não foi suficiente, Casares Quiroga poderia ter fumigado os generais legais Franco, Mola e Sanjurjo, e, se me apuram, o candidato legal Gil-Robles. Infelizmente, ou havia isso que chamam democracia ou não havia suficiente gás à mão. Mas, como sabemos, a técnica foi aperfeiçoada com grande tino por toda a España e a Europa durante as guerras, e polos governos dos EUA sobre o Camboja, Vietname, Afeganistão e o Iraque. Israel aprendeu bem e fumiga periodicamente. E a OTAN fumigou toda a antiga Jugoslávia com o mágico resultado da eclosão de repúblicas independentes, exatamente como as que quer a resistência política fumigável do Reino de España.

Mas o método da fumigação têm dous problemas. O primeiro é que os insectos são estranhamente desobedientes.  Quando alguém declara não querer ser fumigado, como Sastre, é suspeito de capricho terrorista. Não faz falta ser politólogo da FAES para agoirar, como Sastre, que a perspetiva da fumigação e da paralela “contundência” de Patxi López só pode provocar mais violência. Aconteceu assim em toda a longa história desta guerra espanhola inacabada. Nenhum governante aiatolista, nem Ahmadinejad Rajoy nem Musavi Zapatero, pode reinventar a forma geométrica da violência. Uma mostra do espiral: a fumigadora Rosa Díez chamando “carracha” a Alfonso Sastre. Lembram os nazis animalizando os judeus?

O segundo inconveniente é que nunca se sabe onde parar eticamente, que até os fumigadores têm coração. Bom, na realidade não é um problema: é um traço de desenho. Se tiras do fio, até o Tribunal Constitucional da España que declarou legal o terrorista Alfonso Sastre é fumigável, pois, como estamos a ver, agiu por cima da lei superior dos aiatolás. Se eu fosse do Tribunal Constitucional, não estaria tranquilo. E depois, muito por baixo, na zona do povinho, há neste Reino polo menos 150.000 votantes fumigáveis. Loucos. Enganados. Muitos decidiram votar assim só contra a teocracia. Há 150.000 votantes de Iniciativa Internacionalista, isto é, da ETA, só porque gostam muito, como os eternos fumigadores, do cheiro do sangue e dos estertores dos corpos que agonizam. É o grande prazer da Democracia. Já vêem, lideresos supremos: já não sabemos viver sem a vossa guerra. Não sei por que o insecto Sastre, como bom político, teve que mentir-nos sugerindo que se dialogue a paz. Porque, se tu fosses insecto diante do teu fumigador, dialogarias ou picarias?

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Celso Álvarez Cáccamo

Celso Alvarez Cáccamo naceu en Vigo en 1958. É profesor de Lingüística na Universidade da Coruña. Esta é a súa web. »



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